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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Segredos da areia marciana

Curiosity rover Marte solo marciano análise
Pela primeira vez após o pouso no Planeta Vermelho, em agosto passado, o veículo explorador Curiosity procedeu ao cumprimento da missão principal – o exame químico do solo. O manipulador mecânico da sonda tirou a primeira amostra do vale, situado na gigantesca cratera marciana Galle. Em seguida, um punhado de areia vermelha foi submetido à análise no laboratório de bordo.

De acordo com a equipe terrestre do Curiosity, o primeiro teste deu bons resultados – foram obtidos múltiplos dados que devem ser processados em breve. As informações prestadas foram intrigantes, frisando ser necessário tomar novas amostras para "compreender melhor o que acabamos de saber". Não foram adiantados mais pormenores.

A areia foi examinada por dois instrumentos. O primeiro e o mais importante estacionado na sonda é o analisador de amostras (SAM) que, constituindo metade de todos os equipamentos científicos, se destina a revelar a presença de compostos orgânicos e funciona aliado ao dispositivo CheMin que estuda a composição química e mineralógica.

Os cientistas advertem que a eventual descoberta de sustâncias orgânicas em Marte não apontaria necessariamente para sinais de vida no planeta. Segundo ressalta a respeito a bióloga da Universidade Estatal de Moscou, Elena Vorobiova, as moléculas orgânicas foram descobertas pela análise espectral também em Plutão:

"Existem várias substancias orgânicas, uma das quais não têm nada a ver com a vida. São combinações aromáticas, por exemplo, que se encontram no espaço cósmico. Há moléculas orgânicas específicas ligadas à vida. Por isso, a composição elementar não nos dá a resposta definitiva. Na sonda estão instalados aparelhos espectrais, capazes de fazer a análise dos elementos e dos seus compostos. Se os exames levados a cabo indicam a presença da vida, então podem ser qualificados como animadores."

Os compostos orgânicos de origem biogênica, embora integrando seis elementos conhecidos, têm suas características próprias. Mas custa muito distingui-los de moléculas não biogênicas, afirma o vice-diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais, Oleg Korabliov.

"É uma questão complicada. Em princípio, existem métodos que permitem definir a assimetria de moléculas (chirality em inglês) em substancias orgânicas que, alias, ainda não foram descobertas em Marte."

Convém frisar que a sonda Curiosity não anda à procura de sinais de vida, segundo apontam erroneamente as agencias noticiosas. O veículo marcial tem por objetivo fazer pesquisas e revelar se em Marte tinham existido as condições propícias para a vida de microorganismos, sendo necessário esclarecer ainda que papel desempenhava a água nesse processo. Importa precisar como é que em Marte surgiu o metano, presente na atmosfera marciana em pequenas quantidades, prossegue Elena Vorobiova.

"É um dos marcadores biológicos: o metano se forma no processo de vida, podendo formar-se fora da vida ou por outras vias. Por isso, não podem haver garantias de 100%, se o metano for descoberto. Todavia, tal seria um bom resultado que permitisse enviar no futuro para Marte uma missão astro-biológica mais concreta."

Tal missão foi executada em meados dos anos 70 do século passado. As sondas Viking buscavam sinais de vida e obtiveram resultados controversos que, até hoje, têm originado debates nos círculos científicos. Segundo uma versão, os sensores foram "induzidos em erro" pelo peróxido de hidrogênio na presença do qual vivem hipotéticas bactérias locais. O peróxido ajuda-os a não congelar em clima frio.

Nas palavras de Elena Vorobiova, quando a situação das sondas Viking era modelada no laboratório da Universidade Estatal de Moscou, os microorganismos sobreviveram num ambiente com elevada concentração de peróxidos. Por isso, os resultados obtidos há 35 anos têm vindo a assumir uma nova interpretação científica a comprovar a hipótese da vida no solo marciano. Convém apenas estudar, de forma mais escrupulosa e eficiente, a sua composição, sendo essa uma das tarefas incumbidas ao rover explorador Curiosity. A sonda tem 23 meses para desvendar "mistérios químicos" de Marte que podem ter surgido há dois bilhões de anos.
 
Voz da Rússia

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