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quinta-feira, 21 de março de 2013

'Solução de dois Estados' com Israel e palestinos passa por reavaliação

Assentamento israelense (Reuters)
Assentamentos são considerados um dos maiores entraves para as negociações
A "solução de dois Estados" para o duradouro conflito entre israelenses e palestinos é o objetivo declarado de seus líderes e de muitos políticos e diplomatas internacionais.
 
A ideia prevê um acordo que resulte na criação de um Estado palestino independente incluindo Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, vivendo em paz com o vizinho Israel.

A ONU, a Liga Árabe, a União Europeia, a Rússia e os EUA frequentemente reafirmam seu compromisso com o conceito, e o presidente americano, Barack Obama, fez o mesmo durante sua visita a Jerusalém e Ramallah nesta semana.

Mas muitos especialistas, além de cidadãos israelenses e palestinos, acreditam que a solução de dois Estados deve ser abandonada ou, ao menos, reavaliada - já que, passados 20 anos desde os Acordos de Oslo (que estabeleceram o objetivo de dois Estados), não há sinal de concretização desse projeto.

A construção de barreiras israelenses dentro e ao redor da Cisjordânia e a expansão de assentamentos judaicos em terra ocupada (sob a ótica da lei internacional) inviabilizam a criação de um Estado palestino.

Particularmente na esquerda e na extrema direita israelenses, bem como entre ativistas palestinos, crescem as conversas em torno de uma solução que envolveria apenas um Estado.

'Inviável'

Obama defende a solução de dois Estados, mas negociações emperraram
Sob forte pressão dos EUA, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, fez um discurso em 2009 em que se comprometeu com "um Estado palestino desmilitarizado". 
 
Um ano depois, diálogos israelo-palestinos foram reavivados, mas rapidamente chegaram a um impasse, com o fim de um congelamento parcial dos assentamentos judaicos.

Recentemente, o governo de Netanyahu anunciou planos de construir milhares de novas casas nesses assentamentos, inclusive na sensível zona "E1", o que separaria Jerusalém Oriental da Cisjordânia.

Se isso se concretizar, até sob os olhos da ONU seria "um golpe quase fatal" à possibilidade de dois Estados.

Avi Shlaim, historiador britânico-israelense, é conhecido por dizer que Netanyahu "é como um homem que, enquanto negocia a divisão da pizza, continua comendo-a".

"Sempre fui um defensor da solução de dois Estados, mas chegamos a um ponto em que não é mais uma solução viável", diz ele. "Agora defendo a solução de um Estado, não como a escolha número um, mas como uma solução diante das ações de Israel."

Recentemente, mais esquerdistas israelenses e intelectuais palestinos começaram a fazer a defesa ideológica de um Estado binacional que dê cidadania e direitos iguais a todos os moradores de territórios israelenses e palestinos.

Até direitistas como o ex-presidente do Parlamento Reuven Rivlin, que pertence ao partido de Netanyahu (Likud), dizem preferir essa solução à partilha do território israelense.

Debate interno
No ano passado, o ex-premiê da Autoridade Palestina Ahmed Qurei, um dos arquitetos dos Acordos de Oslo, disse que os palestinos precisam começar seu próprio debate.

"Apesar dos aspectos negativos e de todas as diferenças, não devemos descartar a solução de um Estado", disse ele em um artigo. "Isso deve ser debatido internamente e colocado em referendo, antes de ser colocado na mesa de negociação."

Cientes de que a solução de um Estado limitaria a identidade judaica de Israel, autoridades palestinas frustradas com o impasse na negociação atual propõem abandonar a ideia de um Estado próprio.

Mas o presidente palestino, Mahmoud Abbas, diz que há o perigo de que se forme "um Estado semelhante ao (do) apartheid (África do Sul)".

O argumento é de que palestinos muçulmanos e cristãos, com sua população crescente, serão rapidamente mais numerosos que os judeus israelenses. Se Israel elevar apenas o status dos cidadãos judeus, poderia se criar um Estado segregacionista. Alguns dizem que isso já está em curso.

'Três Estados'
Conflito em Gaza, em 2012, reavivou discussão de 'três Estados'
Em novembro passado, o conflito na Faixa de Gaza colocou outra ideia em ciruclação: a separação dos territórios palestinos, na "solução de três Estados".

Alguns analistas israelenses creem que, com o grupo Hamas (que não reconhece Israel) governando Gaza, esse território deveria ser estabilizado e tratado como um Estado separado da Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina tem o controle das áreas palestinas.

O general Giora Eiland, ex-conselheiro de segurança nacional de Israel, propôs que, para isso, o país mude sua política e inicie um diálogo com o Hamas.

Mas há quem diga que o Egito - cujo presidente é membro da Irmandade Muçulmana, que tem elos ideológicos com o Hamas - deveria abrir suas fronteiras com Gaza e assumir responsabilidade pelo território.

Ao mesmo tempo, existe rejeição à ideia, defendida pela direita israelense, de que países árabes vizinhos acolham os palestinos (dando status de Estado apenas para Israel, Jordânia e Egito, que já têm tratados de paz assinados entre si).

"Os palestinos nunca vão se dissolver em outra entidade ou identidade", justifica Mahdi Abdul Hadi, da Sociedade Acadêmica Palestina de Estudos Internacionais.

Mudanças na ONU
No ano passado, as tensões israelo-palestinas aumentaram com a aprovação, na ONU, do status de Estado observador não-membro dado aos palestinos.

Isso permitiu que o termo "Estado da Palestina" seja usado em documentos da ONU e abre espaço para que a ocupação de terras palestinas por Israel possa ser questionada em cortes internacionais.

Mas, em termos objetivos, um Estado soberano palestino continua distante da realidade.

Uma pesquisa de opinião de novembro passado indica que o número de palestinos que apoiam a solução de dois Estados se mantém estável em 51%. Mas o apoio por uma solução binacional cresceu para 27%, cinco pontos percentuais a mais que no ano anterior.

Há sérias dúvidas em ambos os lados quanto a se Obama, atualmente em visita à região, seria capaz de trazer qualquer avanço ao diálogo bilateral. Além disso, os próprios líderes locais estão divididos, e as turbulências em curso no Oriente Médio só fazem aumentar a incerteza na região.

Enquanto isso, o conflito continua a crescer e não pode ser ignorado.
 
BBC Brasil
DeOlhOnafigueira 

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